
A fachada norte do Palácio Capanema está sem o sistema de brise-soleil desde 2022,apenas uma lâmina foi deixada como modelo — Foto: Márcia Foletto
GERADO EM: 02/04/2026 - 22:17
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Em maio do ano passado,o Palácio Gustavo Capanema foi reinaugurado depois de seis anos fechado para obras que consumiram R$ 84,3 milhões. A cerimônia teve a presença do presidente Lula,da ministra da Cultura,Margareth Menezes,e grande elenco. A pompa se justifica: trata-se de um dos edifícios mais emblemáticos da arquitetura moderna no Brasil. A festança,no entanto,aconteceu com a obra incompleta. Havia ali — e ainda há — uma lacuna impossível de ser ignorada. Uma não,1.462. Essa é a quantidade de lâminas que compõem o sistema de brise-soleil (quebra-sol) na fachada norte do prédio. Elas foram retiradas em 2022 e não há previsão de quando serão repostas.
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A ausência dos brises não é mero detalhe. Para além da função prática de proteger o interior do edifício da incidência direta do sol,o elemento arquitetônico é considerado parte fundamental do projeto icônico idealizado e executado entre as décadas de 1930 e 1940 por nomes como Lucio Costa,Oscar Niemeyer e Affonso Eduardo Reidy,a partir de esboços realizados pelo francês Le Corbusier.
— Os brises são indissociáveis da identidade do edifício. Na composição arquitetônica,esses elementos conferem modernidade ao conjunto. Essa fachada,em especial,ganha um dinamismo cromático por meio do jogo de sombras gerado pela incidência solar — explica Sandra Branco Soares,autora do livro “Capanema Maru” (Jauá Editora). — Também são fundamentais para a proteção dos acervos posicionados junto a essa fachada. Sua prolongada ausência implica diretamente na ocupação do espaço e na salvaguarda do acervo.


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Reforma inacabada do Palácio Gustavo Capanema — Foto: Márcia Foletto


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Reforma inacabada do Palácio Gustavo Capanema — Foto: Márcia Foletto

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Após quase um ano da inauguração da reforma,os painéis de brise-soleil não foram instalados. No 12° andar da fachada principal,há apenas uma placa,deixada como modelo — Foto: Márcia Foletto
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Após quase um ano da inauguração da reforma,deixada como modelo — Foto: Márcia Foletto

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Após quase um ano da inauguração da reforma,deixada como modelo — Foto: Márcia Foletto
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Após quase um ano da inauguração da reforma,deixada como modelo — Foto: Márcia Foletto

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Após quase um ano da inauguração da reforma,deixada como modelo — Foto: Márcia Foletto
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Sistema de brise-soleil retirado em 2022 não tem previsão de ser reolocado
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O vazio na fachada se repete em alguns espaços internos. Pelo menos cinco dos 16 pavimentos ainda estão sem uso. É o caso do 12,13,14 e 15 andares e do terraço com sua vista privilegiada do Centro. Na reinauguração,há pouco mais de dez meses,chegou a ser anunciada a abertura de um bistrô ali,o que,naturalmente,criou expectativas. Até agora nada. A utilização desses espaços aguarda um contrato de gestão a ser estabelecido pelo Ministério da Cultura (Minc).
Nos demais andares do prédio,funcionam repartições do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e da Funarte. A Fundação Biblioteca Nacional,que ocupará três andares do prédio,deve começar a mudança na semana que vem,com previsão de conclusão do processo em julho. A livraria Mario de Andrade,no térreo,voltou a funcionar em novembro.
A opção por retirar os brises mesmo sem que houvesse planejamento para sua recomposição ocorreu,segundo documentos do Iphan,após a “comprovação de graves patologias e do comprometimento do conjunto” e a “constatação da presença de fissuras e até a ocorrência de quedas de placas”. Esses incidentes teriam ocorrido entre 2018 e 2021.
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A informação chama a atenção uma vez que em 2014 foram iniciadas reformas externas no prédio que duraram quatro anos e custaram R$ 42 milhões. Em publicação de setembro de 2018,o Iphan convida para a cerimônia de entrega das obras que,diz a nota,incluíram a “total restauração das fachadas” do Capanema.
No início de março deste ano,o prédio foi palco de mais uma cerimônia: o lançamento do primeiro volume da coleção Restauro,série na qual o Iphan apresentará ações de preservação realizadas no âmbito do Novo PAC. O livro é um documento sobre a reforma do Capanema com vasto material fotográfico e registro dos operários envolvidos na empreitada. A solenidade foi comandada por Leonardo Grass,que deixou a presidência do Iphan esta semana de olho nas eleições de outubro.
Horas antes do evento,Grass disse ao GLOBO que está em curso a preparação de um segundo processo de licitação para recompor os brises. No primeiro,realizado em dezembro de 2025,não houve vencedores.
— Quando a obra foi contratada,em 2019,no governo anterior,os brises não estavam incluídos no escopo. Depois que concluímos essa etapa mais estrutural da restauração,foi necessário lançar uma nova licitação específica para eles. Essa licitação foi realizada no ano passado,mas acabou fracassada do ponto de vista técnico-administrativo. Agora estamos estruturando uma nova contratação para tentar concluir esse processo ainda neste semestre e instalar os brises em breve — disse Grass.
No processo que orientou a primeira licitação,o prazo informado para realização dos trabalhos é de 15 meses,com valor estimado em R$ 7.048.957,51. Ou seja,na hipótese de a contratação ser feita até junho,como prometido,os novos brises só estarão no lugar em setembro de 2027,cinco anos após a retirada.
Perguntado se foi um erro retirar os brises sem previsão para sua recomposição,Grass defende a medida:
— A retirada foi necessária para que pudéssemos realizar a recuperação estrutural do prédio. Se tivéssemos mantido os brises anteriores,eles teriam que ser substituídos,o que implicaria refazer parte dos trabalhos. Retiramos,fizemos tudo o que tinha que ser feito no prédio e o deixamos pronto para recepcionar os novos brises exclusivamente.
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Auditoria interna do próprio Iphan sobre as obras incluiu entre as recomendações que a autarquia exigisse da empresa contratada uma “solução eficiente e adequada (...) considerando a descaracterização advinda da retirada” dos brises e que observasse os “riscos atrelados à retirada desse material,como a deterioração do piso e dos objetos restaurados e o prejuízo à ventilação e à arquitetura do edifício”. Perguntado sobre as recomendações da auditoria,o Iphan disse reconhecer “a alteração visual temporária como uma condição transitória de salvaguarda” e que finaliza um novo processo de licitação modelo de contratação integrada para que a empresa vencedora “seja responsável” por projetos,testes e obras.
Mesmo sem os brises na fachada,o Capanema segue atraindo olhares. Desde agosto de 2025,alunos dos cursos de Arquitetura e Belas Artes da UFRJ conduzem visitas guiadas ao prédio. A entrada é gratuita,mas é necessário reservar com pelo menos 24 horas de antecedência. O link está disponível no site do Minc. São quatro horários disponíveis: 9h30,11h30,14h e 15h30 às quintas e sextas-feiras. O passeio dura uma hora e contempla o térreo,o primeiro e o segundo pavimentos.
— A procura é grande e o público muito diverso. Há arquitetos e especialistas,mas também pessoas que passam pelo prédio todos os dias e sempre tiveram curiosidade de entrar. É uma experiência pensada para ser democrática e acessível a qualquer pessoa — diz Sérgio Fagerlande,professor da FAU/UFRJ e coordenador do projeto.
Na semana passada foi aberta uma exposição com fotos,desenhos e informações históricas sobre o Capanema. A mostra permanente ocupa o salão de exposições,no 2º andar,e passará a integrar o roteiro da visita. Enquanto a reforma não termina de fato,uma solitária placa do sistema de brise-soleil,deixada como modelo na altura do 12º andar,exibe,tímida,um pouco do “azul Lucio Costa”,outra marca do prédio icônico.
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