
Marcelo Bielsa,Carlo Ancelotti e Thomas Tuchel são alguns dos técnicos estrangeiros na Copa do Mundo — Foto: AFP,Rafael Ribeiro/CBF e AFP
GERADO EM: 05/04/2026 - 14:56
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O boom dos técnicos estrangeiros não é algo exclusivo do futebol brasileiro. Pelo contrário,virou uma tendência também nas seleções. Com a chegada do português Carlos Queiroz à seleção de Gana para “fechar a lista” da Copa do Mundo,na última segunda-feira,mais da metade (27) das 48 equipes da competição serão dirigidas por treinadores de um outro país.
Este número representa um aumento significativo em relação à edição do Catar,em 2022,quando o torneio contou com nove técnicos estrangeiros entre as 32 participantes (cerca de 28%). Agora,em 2026,a proporção de comandantes gringos dobrou,subindo para 56,2%.
Agora em maioria na competição,os estrangeiros buscam um feito inédito: o título da Copa do Mundo. Até hoje,em 22 edições,todas as campeãs mundiais foram dirigidas por técnicos de seu próprio país.
Desta vez,serão 27 nacionalidades diferentes à beira do gramado. Para Carlos Eduardo Mansur,comentarista do Sportv e colunista do GLOBO,o cenário reflete bem o momento de “livre circulação” dos profissionais no futebol moderno.
— A globalização é um traço definidor do futebol atual. E com isso as fronteiras (entre os países) se tornam menos rígidas. Era natural que o fluxo incessante de jogadores também fosse acompanhado pela livre circulação de técnicos — destacou.
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As nacionalidades com maior número de representantes são França e Argentina,com seis cada. A maioria deles comanda seleções que compartilham o mesmo idioma de seu país de origem,o que ajuda neste processo. Um fator de grande importância na opinião de Ramon Menezes,ex-técnico do Sub-20 e Sub-23 da seleção brasileira e interino da equipe principal em 2023.
— Eu acho que a língua é um diferencial. Não era antes,mas hoje é,e eles (clubes e seleções) estão olhando muito isso. É uma dificuldade para os brasileiros porque você tem que se comunicar com os atletas e os diretores.

Infográficos dos técnicos da Copa do Mundo de 2026 — Foto: Editoria de Arte
Mesmo diante da diversidade de nacionalidades e do aumento do número de seleções,a Copa do Mundo não terá nenhum técnico brasileiro pela primeira vez na história dos mundiais. Sempre houve pelo menos um representante no comando do Brasil — o que muda agora com o italiano Carlo Ancelotti. Ainda assim,os brasileiros costumavam marcar presença em outras equipes,como Carlos Alberto Parreira,que dirigiu Kuwait,Arábia Saudita,Emirados Árabes e África do Sul,Felipão,com Portugal,e Zico,no Japão.
Um dos motivos para essa ausência de brasileiros,segundo Mansur,é a realidade do próprio futebol no Brasil,que não oferece estabilidade para o desenvolvimento dos profissionais. Somente nas primeiras 11 rodadas do Brasileirão deste ano,por exemplo,dez técnicos já foram demitidos:
— Acho que o fato de haver ou não um treinador brasileiro numa seleção periférica,como ocorreu em outros Mundiais,não é um certificado da boa reputação da escola brasileira de técnicos. O grande fato novo é a seleção brasileira ter um estrangeiro. E,isto sim,resulta da perda de credibilidade dentro do próprio país,de um olhar de desconfiança para o técnico brasileiro. Eles são um produto do meio,formados num ambiente que não lhes dá qualquer estabilidade,são desestimulados a formular sistemas mais complexos e induzidos a defender o cargo a cada três dias. Não é um convite a pensar em um trabalho mais elaborado.
Ramon Menezes,por sua vez,reconhece que o momento dos técnicos brasileiros não é bom,mas,assim como Mansur,vê isso como resultado da falta de oportunidades no Brasil.
— A gente estava torcendo muito para o Sylvinho (parou na repescagem com a Albânia) para ter um brasileiro na Copa. Acho que aqui dentro do país o momento do treinador brasileiro não é muito bom. A gente tem vários fatores. Um deles pode ser pela moda (dos estrangeiros),mas temos também treinadores muito preparados no Brasil,agora é também dar oportunidade. Hoje é muita cobrança,e os próprios treinadores que vêm de fora também estão tendo muita dificuldade.
— Futebol envolve muito o "é vencer e vencer". Você tem que fazer um trabalho muito bom e por vezes não tem tempo,paciência. Hoje,com rede social,a crítica é muito forte. Acho que cabe a nós treinadores brasileiros continuar evoluindo,estudando. Vemos muitos treinadores,a maioria na Série B,mas não na Série A. Isso pode passar ou também piorar,mas a gente tem que ter a cabeça boa e trabalhar.
Livre no mercado neste momento,Ramon aproveita este período para estudar e,se um dia tiver oportunidade,estar bem preparado para ser o estrangeiro em alguma seleção.
— Eu costumo dizer que o treinador,nessa fase em que fica parado,é muito parecido quando um atleta se lesiona. Penso que esse é um momento para estudar muito. Eu tenho feito inglês,trabalhado também um pouquinho o espanhol,mas eu penso que é o momento para eu voltar mais forte. E com isso eu estaria preparado para ter oportunidade de uma carreira internacional.
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