
Daniel Vorcaro negocia um acordo de delação premiada e uma das contrapartidas costuma ser a devolução de ativos,o que o banqueiro resiste — Foto: Agência O Globo
GERADO EM: 02/04/2026 - 22:39
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Investigadores à frente do caso do Banco Master estão rastreando transações no exterior da teia de fundos ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro durante a tentativa de venda da instituição financeira ao Banco de Brasília (BRB). O mapeamento amplia a discussão sobre a devolução de ativos do banqueiro,uma das contrapartidas de acordos de delação premiada,como o que está em negociação,e também um dos obstáculos para que ele seja concretizado.
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A apuração foca no fluxo de recursos em paraísos fiscais e outras regiões com regras menos rígidas para operações financeiras. Um dos destinos na mira é Dubai,nos Emirados Árabes Unidos.
Essa frente de investigação foi concentrada no inquérito aberto em fevereiro,que apura suspeitas de gestão fraudulenta no BRB,instituição controlada pelo governo do Distrito Federal que apresentou proposta para aquisição do Master em março de 2025. O negócio foi barrado pelo Banco Central em setembro do ano passado. Dois meses depois,a instituição foi liquidada,e Vorcaro foi preso pela primeira vez.
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O BRB apresentou um pedido ao Supremo Tribunal Federal (STF) para que um eventual acordo de colaboração premiada ligado ao Banco Master reserve valores para indenizar o banco por prejuízos sofridos na operação que envolveu a tentativa de aquisição do banco de Vorcaro pela instituição,que é controlada pelo governo do Distrito Federal.
Antes de iniciar o processo de colaboração,Vorcaro vinha negando irregularidades e afirmando que estava à disposição da Justiça. Procurada para comentar,a defesa não se manifestou.
Vorcaro negocia um acordo de delação premiada com a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) e já assinou um acordo de confidencialidade. Como mostrou O GLOBO,a expectativa dos investigadores é que ele apresente os anexos da delação em até duas semanas. Caso as tratativas avancem,pessoas que acompanham o caso de perto afirmam que o banqueiro precisará dar detalhes das operações fora do país.
Como revelou a colunista Malu Gaspar,interlocutores a par dos negócios do banqueiro estimam que ele tenha cerca de R$ 10 bilhões alocados fora do país. Vorcaro,portanto,teria interesse em acelerar o processo de delação para limitar o quanto precisaria devolver e evitar que os recursos sejam esvaziados por gestores,investidores,credores e outros atores que eventualmente tenham acesso aos fundos.
A complexa teia foi formada justamente com o intuito de dificultar o rastreamento das verbas e os reais beneficiários. Com o acordo de colaboração,Vorcaro indicaria aos investigadores onde está seu patrimônio e o dinheiro seria bloqueado,estabelecendo o limite. O valor a ser devolvido,no entanto,é um fator que deve alongar as tratativas — em conversas prévias,Vorcaro já teria demonstrado incômodo com a possibilidade de ter que desembolsar uma quantia muito expressiva.
Acordos de delação fechados anteriormente dão a dimensão dos montantes que entram na mira dos investigadores. O doleiro Dario Messer,por exemplo,devolveu R$ 1 bilhão aos cofres públicos,mesma multa aplicada aos irmãos Joesley e Wesley Batista,donos da J&F.
Já o banqueiro Eduardo Plass,responsável pela delação que atingiu o empresário Eike Batista,por sua vez,foi sancionado em R$ 300 milhões. No caso da Odebrecht,as multas dos acordos dos 77 colaboradores,que somavam R$ 500 milhões,foram bancadas pela empresa. Somente a multa relativa ao empresário Marcelo Odebrecht,ex-presidente da companhia,foi de R$ 73,4 milhões. A multa de Emílio Odebrecht,foi de R$ 68,7 milhões.
Na busca pelo dinheiro no exterior,o inquérito analisa,entre outros documentos,informações colhidas pela auditoria independente focada em falhas no processo de compra de carteiras com indícios de fraude do Banco Master pelo BRB. O documento responsabiliza 30 dirigentes da instituição,e o BRB decidiu afastar todos eles. A investigação tem em mãos ainda o conteúdo de nove celulares de Vorcaro,que reúnem cerca de 8 mil vídeos e 400 GB de dados.
Investigadores apuram supostos crimes de gestão fraudulenta,gestão temerária e organização criminosa na venda de carteiras de crédito consideradas “insubsistentes” do Master ao BRB,por um valor inicialmente estimado em R$ 12,2 bilhões,mas que pode chegar a R$ 17 bilhões.
O comando do BRB foi trocado ainda no fim do ano passado,e a nova administração iniciou a auditoria para apurar possíveis irregularidades. Em entrevista ao GLOBO no mês passado,o atual presidente da instituição financeira,Nelson de Souza,disse que trocou quase toda a cúpula,mantendo apenas dois diretores,sob alegação de que não teriam qualquer relação com o caso Master. O BRB foi procurado,mas não se manifestou.
Em depoimento no fim do ano passado,Vorcaro afirmou que tratou com o então governador do Distrito Federal,Ibaneis Rocha (MDB),sobre a negociação envolvendo o Master e o BRB. Segundo ele,houve contatos durante o período das tratativas,embora não tenha detalhado o teor das conversas. Ibaneis afirmou na ocasião que nunca falou com Vorcaro sobre a operação. O ex-governador deixou o cargo no início da semana para se candidatar ao Senado.
Como mostrou O GLOBO,Vorcaro manteve interlocução com Ibaneis durante as negociações e relatava a pessoas próximas que havia construído uma rede de relações políticas em Brasília. Em conversas reservadas,dizia ter feito “fortes amigos” e afirmava que,sem esse tipo de apoio,não teria alcançado sua posição no mercado financeiro. À PF,o banqueiro afirmou que Ibaneis chegou a ir à sua residência. Em conversas privadas,relatava que,durante as negociações,o então governador teria buscado informações sobre seu histórico com aliados políticos e recebido avaliações positivas. (Colaborou Pepita Ortega)
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