Balanço ambiental: Marina Silva deixa ministério com queda no desmatamento, mas tem gestão marcada por reveses políticos

DinheiroApr 3, 2026 IDOPRESS

A ministra do Meio Ambiente,Marina Silva — Foto: Daniel Ramalho/AFP

RESUMO

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GERADO EM: 02/04/2026 - 22:06

Marina Silva sai do Ministério com queda de 58% no desmatamento,mas enfrenta desafios políticos.

Marina Silva deixou o Ministério do Meio Ambiente com uma redução de 58% no desmatamento da Amazônia,mas enfrentou reveses políticos significativos. Sua gestão foi marcada por um equilíbrio entre visões ambientalistas e desenvolvimentistas,destacando-se pela criação do Plano Clima e novas Unidades de Conservação. Contudo,enfrentou derrotas,como a aprovação do novo Licenciamento Ambiental,e não conseguiu implementar a Autoridade Climática.

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Ao assumir o Ministério do Meio Ambiente,em janeiro de 2023,Marina Silva tinha duas missões consideradas emergenciais: diminuir os índices de desmatamento e recuperar a governança ambiental após os anos de gestão Jair Bolsonaro (PL). Na saída da titular,a pasta entrega um resultado de 58% de redução de área devastada na floresta amazônica e celebra o impulsionamento do financiamento climático. Em meio a derrotas políticas,como o novo Licenciamento Ambiental aprovado pelo Congresso ano no passado,a retomada das medidas de conservação dos biomas,que contribuiu diretamente para o prestígio global colhido pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na área,é a principal marca da ministra,que deixou o cargo anteontem,com vistas às eleições.

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Reconhecida internacionalmente no meio ambientalista,Marina retornou ao posto de ministra que havia deixado em 2008 após divergências internas sobre projetos de hidrelétricas na Amazônia e a perda de apoio político. Quase duas décadas depois,seguiu se equilibrando entre as visões desenvolvimentista e ambientalista dentro do governo Lula. Com mais experiência e resiliência,apontam aliados e observadores,alcançou apoio sólido do presidente.

Além do combate ao desmatamento,outros pontos citados como positivos de sua gestão foram a criação do Plano Clima,primeira estratégia nacional com metas para redução das emissões de gases de efeito estufa e de adaptação aos impactos das mudanças climáticas; a criação de 13 novas Unidades de Conservação; e o fomento de mecanismos financeiros da agenda socioambiental,como o Fundo Clima,gerido pelo BNDES,que,ao lado do Ministério da Economia,colaborou com a gestão de Marina. O mecanismo mobilizou R$ 52,4 bilhões desde 2023.

Legado de Marina Silva — Foto: Editoria

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Na comparação entre 2022 e 2025,o desmatamento na Amazônia caiu 58%,e no Cerrado,32%. Em coletiva na última quarta-feira para oficializar a passagem do bastão para seu secretário-executivo,João Capobianco,Marina ressaltou que os números são “fruto do trabalho” do Ibama,do ICMBio e da Polícia Federal (PF).

— As fiscalizações do Ibama na Amazônia cresceram 80% e a área de mineração ilegal foi reduzida em 50% — disse Marina.

Suely Araújo,coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima e ex-presidente do Ibama,afirma que a gestão foi marcada pela reorganização do Ministério do Meio Ambiente e suas autarquias,antes enfraquecidos no governo Bolsonaro. 

—  Os resultados no controle do desmatamento são o principal trunfo,os números na Amazônia são muito expressivos. No Brasil esse resultado tem implicação climática direta,pois o desmatamento é o maior emissão de gases — explica Araújo,que diz que o ministério "fez o que conseguiu" diante das resistências internas e do Congresso. —  Acho que a Marina se mostrou mais resiliente,em relação à primeira passagem. Os conflitos foram bem evidentes,certamente sofreu pressões grandes, mas optou por seguir na gestão até o final. 

Na política climática,assunto que ganhou maior destaque desde a mudança do nome oficial da pasta - agora Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima - Suely Araújo destaca a entrega do Plano Clima,apesar de críticas pontuais ao setorial de mitigação da energia,que não assume descarbonização de forma clara,e à parte de meios de implementação,sem dados claros.

Já o Fundo Clima,que saiu de um patamar anterior de R$ 500 milhões anuais para dezenas de bilhões,e o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF),contaram com o apoio do ministro Fernando Haddad e do BNDES,principais aliados de Marina Silva na atual gestão.  Lançado oficialmente na COP30,o TFFF  visa a financiar a conservação e a restauração de florestas tropicais nos países em desenvolvimento e já obteve US$ 6,7 bilhões com o apoio de 63 países.

—  Haddad e Marina botaram o Fundo Clima em outro patamar — afirma Araújo,por outro lado,diz que é preciso superar as dificuldades fiscais de municípios,principalmente em áreas de risco,em receber os empréstimos do Fundo Clima. 

A presidência da COP30,sediada ano passado em Belém (PA),ficou com o Itamaraty,sob o comando do embaixador André Corrêa do Lago. A escolha dividiu opiniões,mas o fato de Marina não ter sido a presidente não evitou que ela impusesse sua visão no discurso de Lula na conferência,que cobrou planos para redução do uso de combustíveis fósseis. O lançamento do TFFF e das discussões de Mapas do Caminho também tiveram influência direta da ministra. 

—  Além do mapa global,a condução do governo brasileiro por um mapa nacional para o fim do desmatamento e para a transição energética representa uma agenda importante — explica Mariana Mota,Gerente Política do Greenpeace Brasil,que elogia a gestão,ainda que com muitos desafios não superados por falta de consenso que dificultam políticas estruturais. —  Marina pegou a agenda socioambiental climática destruída pela gestão anterior,e houve compromisso evidente em reconstruir.

Novo Licenciamento Ambiental e Autoridade Climática na gaveta

Apesar dos avanços,houve derrotas importantes. Marina não foi capaz,por exemplo,de superar a ofensiva do Congresso ou de superar divergências internas com outros ministérios — ainda que,na avaliação de especialistas,ela tenha “feito o que pôde”. No ano passado,a aprovação do novo Licenciamento Ambiental,com o objetivo de acelerar as autorizações para grandes obras,foi considerado um retrocesso histórico por entidades ambientalistas.

Na época,houve críticas sobre falta de empenho do governo e suposta falta de interesse da Casa Civil em articular para barrar a proposta. Lula chegou a reverter os pontos mais polêmicos,mas o Congresso derrubou a maior parte dos vetos.

—  O ministério lutou contra,mas não teve força necessária para segurar. É um fato que vai marcar esse período — lamentou Suely Araújo.

Para Adriana Ramos,secretária executiva do Instituto Socioambiental (ISA),o novo Licenciamento Ambiental foi a principal derrota da gestão.

—  Sem dúvida nenhuma faltou apoio do governo,em negociações que teriam que ter empenho da Casa Civil. A reprovação da proposta sempre foi bandeira da Marina,mas não foi bandeira do governo,que tratou o tema como moeda de negociação para outras coisas. Acho que ela lidou melhor com as contradições internas,e deu mais visibilidade às contradições internas e disputas do governo.

Outra crise foi a autorização para exploração de petróleo na Margem Equatorial,o que gerou pressões públicas sobre a ministra. 

O Observatório do Clima entrou na justiça e contestou o licenciamento do projeto,apontando que dados sobre hipóteses de vazamentos não foram devidamente analisados. Mas Adriana Ramos rechaça o discurso de derrota a Marina nesse caso.

— A posição dela era cumprir o licenciamento ambiental. No momento que a Petrobras cumpriu as condições,a licença foi concedida. O meio ambiente perde,mas ela como ministra fez cumprir o processo.

Uma derrota interna foi a não criação da Autoridade Climática,órgão que Marina Silva desejava implementar para coordenar,articular e acelerar as políticas públicas de enfrentamento às mudanças climáticas. Sem acordo como funcionaria o órgão,e com resistência da Casa Civil,a ideia não saiu do papel.

Segundo Suely Araújo,a proposta sofria resistência desde o período de transição,após a eleição de Lula.

—  Lideranças na política ambiental já divergiam sobre como a Autoridade funcionaria,não era um problema só com a Casa Civil. Depois até houve consenso no início do governo,sobre a necessidade do órgão,mas não progrediu. Essa foi uma derrota pra Marina.

Internamente,no Ministério do Meio Ambiente,também prevaleceu a visão de que a luta de Marina Silva é "desigual" e que derrotas seriam inevitáveis. Ainda assim,houve avanços no diálogo,como o ocorrido com estados na implantação de Unidades de Conservação e outras políticas públicas voltadas ao uso ou ampliação de áreas ambientais,como o Rede Trilhas.

Um diretor da pasta,que pediu para não se identificar,explicou que os conflitos com a Casa Civil não foram exclusividade de Marina Silva e que essa situação se repetiu na relação do ministro Rui Costa com vários outros ministérios. Já as diferenças com os ministérios de Minas e Energia e Pesca eram esperados. Por outro lado,ele afirmou que diferentemente da sua última passagem,dessa vez Marina não chegou a um ponto em que se exigiria,para a continuidade na pasta,"violar seus valores".

— O governo anterior empurrou Marina a um ponto em que ou ela cedia ou saía,e foi o que aconteceu. Agora houve mais habilidade do Lula. Trouxe ela para perto,e soube escutá-la melhor — afirma o integrante da pasta,que também ressalta seu prestígio internacional.  — Onde Marina vai,parece o Pelé. É um prestígio impressionante,a aura dela chega antes que ela.

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